quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Cata- vento

A menina sente a grama abaixo de seus pés, e com ela vem toda a sensação que não sai da sua cabeça; sente-se limpa, pura, cheia de flores e cheiros, e ao mesmo tempo vazia, ocupada por uma imensa saudade, corrosiva e intensa. Farta-se das paredes, a menina quer mais, quer mais espaço, mais ar, quer um cata-vento a girar só para si, e que ele tenha a capacidade de girar com sentimentos, e não só com vento.
A menina sonha, sonha tanto que se farta de não ter. Cansa-se da falta do material, da ausência tão dura, tão seca. A menina quer o molhado, o úmido, o cheio de fluidos, e com os fluidos que venham os doces,os agradáveis, os melhores sentimentos. Mas enche-se de vento, de brisa leve e solta, como o vento que dança com sua saia. E o vento farta-se de si, por habitar aquele corpo tão incauto, e não possuir aquela mente tão impenetrável. E a mente torna-se cada vez mais forte, a fortaleza de seu corpo está na mente, e nos sentimentos que nela estão. São os sentimentos da menina que a fazem ser o que é, a menina dos pensares demais. E eus pensares movem-se como o vento, rápido, não doce ventina, e sim tufão, passam levando tudo que não é firme e voltam à dona como num giro, como o tão desejado cata-vento.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Andando por essa cidade de solares e luares só uma idéia persiste em não sair da cabeça da menina.Passeia pela Antiga,e as cores e formas velhas lembram tardes- quase noites- de passeios infindos e desvairados, onde na cabeça só uma coisa passava.Corre pelos becos e esquinas iguais-incrivelmente iguais- tentando decifrar , ou melhor, ao menos decodificar aquela teia confusa e condensada da mesma idéia a passear. Pelos bares, aqueles do cais,as cervejas rodavam bandejas, geladas e apetitosas,mas não para a menina, que continuava com apenas um pensar, que por essas horas, além de apenas sinapses e impulsos, já tinha virado desejo, tão forte e tão latente que já transformava a aparência e o humor.

Descaradamente andava a procurar, parava em algumas casas, à procura de lembranças vagas,jamais mais fortes que as que repousavam-nesse momento- em sua mente, arrodeava pelos cantos, corria pelas estradas, corria,corria, mas a cabeça não esvaziava, se quer amenizava. Creio que não devo me intrometer , mas acho que a menina descobriu a saudade.

No café que tomava insaciavelmente, cada pedacinho do pó moído entrava na sua garganta como a mais potente droga, mais uma vez os pensamentos e as lembranças que aquele gesto cotidiano a traziam, inebriavam e torpeciam a cabeça, e as pernas da menina.
Que coisa!
(...)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tudo se revela!

Fecha os olhos: cala.
Desliza a mão: perde a calma.
Deixa-se levar: perde a fala.
Afasta-se: e fica sem ALMA!

Rola na cama - e não descansa;
Corre pro banheiro - a perna cansa;
Volta para a sala - e tudo desanda;
Recebe um dengo, e a raiva amansa!

Ouve um som e o coração palpita
Deseja uma boca e o pulsar se agita
Pensa num gosto e a vontade grita.

Ama; e tudo se acomoda!
Quer; e tudo se assossega!
Tem; e tudo se revela!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Brincadeira de flores e olores - dança a menina po'entre os temores

Esteve a pensar nas flores, nas Margaridas.
Sentiu flamejar olores, bem quistos os das Orquídeas.
E foi passear com as Zínias, Lírios e Hibiscos.
Olvidando da vida, da existência, em meio à Tulipas.

Passeia solta, colorida.
Como se quisesse afugentar os males - esvair os sustentáculos!
Aprecia a forma melancólica e distorcida,
Das violetas das Gérberas, dos Antúrios das colinas.

Exala flor do campo,
Do Maracujá rouba o prazer.
Diverte-se com a Astroméia;
E a Chuva-de-prata faz florescer.

Vive solta, banha-se em lasciviosos deleites:
-Ah! Meu desejado Copo-de-leite!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A menina e o lago

Papéis. Fotos ao melhor estilo amador-polaróide. Grama, gramado, gramíneas e uma menina.
Cabelos longos -como as histórias já vividas-, braços, pernas e pensares brancos, bem brandos [abrandados a pouco, é certo], claros,porém firmes.
Um banquinho -daqueles de praça, usados pelos namorados para tudo de mais romântico- sustentava aquele corpo esguio e esbelto, e aquela alma pesada, de "chumbo e segredo",de pena e pedra, mel e vinagre, afável e acre. Seus pés mexiam insessantemente e insistentemente, numa velocidade pungente e trépida, deleitosa, lasciviosa. Suas mãos, quase finíssimas, tocavam canetas e lápis-de-cor sobre os papéis nada brancos!
Outro banco - deveras maior este, pudera!- acoitava um moço bem grande, forte, ríspido, encaracolado. Nada tinha nas mãos. Ao redor só o cenário o cercava. Era bem quieto o corpo. Pernas grossas e largas, braços brancos, asquerosamente límpidos. Já os pensares... Ai!Chegavam a alucinar! Ritmados, rápidos, rápidos! Não paravam nunquinha. Irritavam-o, mas faziam dele o que era : escritor.
Estranho! Andavam no parque os dois. Cultuavam diariamente o mesmo leito -gramíneo e molhado, quase uma ilha-, o lago; separados pela água branca - azul é reflexo do céu, oras! -, transaparente e limpa, sem gosto, creio eu - como toda água deve ser.
Uma manhã, um mergulho, encontro de corpos. E o que era impecilho virara motivo de anseio.
Gozo, gozo, gozo, e fitar - mais gozo. E a repetição do ato: continuamente...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Falta

Mesmo quando o escuro que te circunda, tentar de ti se apossar;

Mesmo quando a falta de luz - ou a falta de algo - de ti se apoderar;

Mesmo quando o breu sem fim, infinito e tenebroso medo, de ti se aproximar...


Pense que o escuro pode clarear;

A falta – um dia, ou pelo menos por um dia - pode cessar;

E o breu pode te modificar...


Quando aos poucos a solidão te tomar,

E a falta do que te faça feliz insistir em te achar.

Mostre que podes vencer a dor e o medo.

Mostre que podes curar a ti mesmo.

Mostre que podes ficar bem consigo e com quem – ou o que – quiser.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Anjo trapalhão!

O anjo que outrora vagava po'entre as nuvens de algodão,
Decidiu descer do céu, e vir fazer confusão.

Desdobrava-se para tornar realidade,
Amores que além de sonhos, necessitavam de reciprocidade.

Vagou por mentes. Que indecisões!
Procurou o amor, passeou pelos corações!

Tentou fazer com que pessoas opostas, pudessem se gostar,
Deu a elas uma condição maior de amar...

Separou – em frascos – vestígios do puro sangue de um coração desalmado, e deu de presente,
Para alguém de peito dilacerado [cujo tempo, há muito, havia desistido de dar por curado].

Observou cuidadosamente no que daria,
Pensou então, que aquilo, música se tornaria.

Deixou no ar a melodia,
De algo, que com o austero peito mexeria.

E juntou duas almas, em uma só poesia.
E juntou duas almas, em uma só poesia.


Fez versos de paixão...
Fez corpos em canção...

Mudou a expressão,
De um insípido coração.

Ah! Que anjo trapalhão!

Descobriu o
amor,
E inventou a adoração.